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Editorial
- 485
Aprender com a História
Costuma-se
dizer que a história é a grande mestra da humanidade. O
homem, porém, é péssimo aprendiz e costuma não
tirar proveito da experiência acumulada. A crise que vivenciamos
é exemplar. Nos Estados Unidos, epicentro do terremoto financeiro
em curso, as empresas listadas nas bolsas de valores adotam obrigatoriamente
a Governança Corporativa (conjunto de normas destinadas a garantir
uma gestão ética, transparente e responsável) que
as faz merecedoras da confiança dos investidores. A existência
desse compromisso, no entanto, não evitou a avalanche de escândalos
corporativos em 2002. Para reconquistar a confiança dos investidores
americanos, o Congresso aprovou, naquele mesmo ano, a lei Sarbanes-Oxley,
obrigando as empresas a adotar, também, mecanismos de auditoria
e segurança confiáveis. Aparentemente, tudo em vão...
Estudiosos
da história do Japão atribuem à instabilidade geológica
do país a formação de alguns traços marcantes
do caráter do povo japonês, como a rigorosa obediência
às leis e a atitude de colocar os interesses da sociedade acima
dos interesses individuais. Isso porque, entre as populações
primitivas, a sobrevivência de cada pessoa, em meio às freqüentes
catástrofes naturais, dependia dramaticamente da união de
esforços e da solidariedade de todos.
Quem sabe se,
com tantos e recentes terremotos financeiros (inclusive o do Japão
em 1991), os altos executivos acabem se convencendo de que a sobrevivência
de seus negócios depende fundamentalmente da saúde financeira
da coletividade, e que prosperidade nada tem a ver com a ganância
e o lucro fácil.
Editor-Chefe:
Helder Horikawa (Mtb 26.672)
E-mail: editor@nippobrasil.com.br
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Opinião
- 485
Para onde vai a economia mundial?
Alberto Furuguem*
Em tempos
de grande incerteza e muita turbulência no cenário da economia
mundial, as entrevistas com economistas, operadores do mercado financeiro,
líderes políticos, empresários, multiplicam-se, na
tentativa de informar a população sobre os possíveis
desdobramentos da crise.
As opiniões
são as mais diversas e somente o tempo dirá quem está
com a razão.
Que a economia
mundial e brasileira crescerão menos em 2009 ninguém parece
mais ter dúvida. O problema é saber o quanto menos.
No caso da
economia brasileira, depois de um crescimento em torno de 5% em 2008,
as projeções para o próximo ano estão girando
em torno de 3%.
As medidas,
já tomadas pelos principais governos e bancos centrais dos países
mais atingidos pela crise, parecem-nos adequadas e poderão ser
decisivas para evitar um colapso do sistema financeiro. Isso deverá
livrar a economia mundial de uma grande e prolongada depressão
como a dos anos 1930. E isso não é pouca coisa. Em comparação
a uma depressão (forte e duradoura queda na produção
e no emprego), uma simples recessão (pequena queda não duradoura
da produção e do emprego) ou uma desaceleração
(queda na taxa de crescimento do PIB) soam como música.
Para os investidores
e a população em geral, algumas tendências (ao atual
nível de nossa percepção), parecem bastante prováveis
no caso do Brasil:
A taxa
de juros para as aplicações em renda fixa continuará
sendo muito interessante, pois permanecerá entre as mais elevadas
do mundo.
O estreitamento
do mercado externo para os produtos brasileiros poderá ser parcialmente
compensado pela expansão do mercado interno, no qual o crédito
deverá continuar a desempenhar papel fundamental (depois de superada
a atual crise de confiança no sistema financeiro internacional).
Aqueles
que tenham investimentos em ações de boas empresas devem,
de preferência, ter a paciência de esperar, pois, no longo
prazo, os resultados tendem a ser compensadores.
Os planos
empresariais de investimentos precisam, em geral, ser repensados e reavaliados
diante da nova perspectiva da economia brasileira e mundial. Em cenário
de desaquecimento da economia, surgirão, inevitavelmente, oportunidades,
e não somente ameaças. Será necessário analisar
caso a caso.
Quem
depende da cotação do dólar certamente estará
perguntando: o dólar poderá voltar aos níveis
anteriores, quando chegou a cair abaixo de R$ 1,60?. Em um sistema
de câmbio flutuante, o dólar poderá, em tese, subir
muito ou cair muito, a depender das condições de oferta
e demanda pela moeda estrangeira. Na prática, é difícil
imaginar uma volta aos níveis anteriores, pois, tanto a balança
comercial quanto a disponibilidade de recursos no mercado financeiro internacional
tendem a ser menos favoráveis do que foram até passado recente.
Então, em nosso entender, se variações mais acentuadas
ocorrerem, em matéria de cotação do dólar,
tenderão a ser mais para cima do que para baixo.
Finalmente,
vale lembrar que, da mesma forma que não há bem que dure
sempre, também não há mal que não se acabe.
Na realidade,
o que podemos esperar, após as lições da presente
crise, é um aperfeiçoamento das regras que devem presidir
o funcionamento não somente das empresas financeiras, mas de todas
as empresas.
Na raiz do
problema está, a nosso ver, como ficou claro, desde a crise da
Enron (uma empresa de energia nos Estados Unidos) alguns anos atrás,
o sistema de remuneração de muitos executivos. Em alguns
casos, eles estavam mais interessados em obter os maiores lucros no curto
prazo (e ganhar elevados valores em bônus), sem se importar com
o futuro no médio e no longo prazos das empresas. No curto prazo,
executivos embolsavam verdadeiras fortunas e, em prazo mais longo, as
empresas poderiam simplesmente quebrar. Tudo isso terá que ser
repensado.
Repensar as
práticas de gestão, repensar os regulamentos e aperfeiçoá-los.
No final, o funcionamento não somente do sistema financeiro, mas
de todo o sistema econômico, sairá aprimorado e fortalecido.
*É
economista, consultor e mestre pela FGV.
Foi assessor do ministério da Fazenda no governo Geisel
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