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(Por Erika
Kobayashi* | Fotos: Divulgação)
Em um país
de mais de 100 milhões de habitantes, ser eleita pela revista Newsweek
Japan como uma das cem personalidades mais influentes do Japão
é apenas um dos fatos que pode ajudar a entender a intensidade
de Shirotama Hitsujiya, performer e diretora artística do Yubiwa
Hotel. Isso aconteceu em 2006, mas ela começou a fazer barulho
já em 1994, quando fundou a companhia. O Yubiwa Hotel ficou conhecido
por suas performances que questionam, de maneira bem humorada, o papel
da mulher na sociedade japonesa. Ela já escreveu cerca de 40 espetáculos,
a maioria com elenco feminino e público masculino, cujo
interesse era principalmente ver as meninas dançando, algumas vezes
quase despidas não só de roupas, mas de conceitos tradicionais.
Chegamos ao ponto. Shirotama e Yubiwa passam longe do tradicionalismo.
Talvez por isso sejam tão coerentes com o Japão atual e
com um mundo em que as pessoas buscam uma vida mais otimista. As performances
tocam em questões profundas não apenas do universo feminino,
mas do ser humano de maneira geral (isso fica claro no espetáculo
multimídia Exchange, apresentado em Paris em maio). O discurso
de Shirotama é consistente, mas sem ser panfletário, chocante
ou repulsivo. Chega também a beirar à doçura e uma
sutileza característica da diretora. Durante a entrevista que concedeu
à Zashi junto com o empresário Michimoto Satoh no café
do Palais de Tokyo (um dos centros de arte contemporânea em Paris),
ela falava calmamente, explicava o círculo da vida
fazendo desenhos na mesa e procurando as palavras certas (em inglês
e alternadas a goles de cerveja) para se expressar.
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Zashi
- Como você começou a trabalhar como performer?
Shirotama - Eu estava desapontada com o curso de literatura e pensava
em mudar para o departamento de música. Eu saía da universidade
e trabalhava como garçonete em um club em Shinjuku. Um dia, a dona
perguntou se eu não queria cantar. Assim, comecei a fazer pequenas
performances, mas o club faliu.
Zashi -
Assim surgiu a companhia?
Shirotama - Sim, eu tinha uma amiga que estudava dramaturgia e ela
tinha muitos amigos. Eu chamei alguns músicos e comecei a cantar.
O Yubiwa Hotel começou como uma companhia de homens e mulheres.
Zashi -
E o que aconteceu depois que restaram apenas as mulheres?
Shirotama - Não sei o que aconteceu exatamente, mas os homens
começaram a deixar a companhia por volta de 1997. Eu posava como
modelo para artistas durante o dia e fazia performances à noite.
Era divertido porque eu tinha que ficar parada no meu trabalho, mas meu
cérebro funcionava, eu pensava sobre as performances e tinha idéias.
As outras garotas do Yubiwa Hotel começaram a trabalhar como modelos
também e podiam se dedicar bastante aos ensaios e shows, como eu.
Michimoto - Existe uma pressão social no Japão para que
os homens tenham um bom trabalho, casem etc. As mulheres, por não
sofrerem essa pressão, conseguem conciliar outras atividades. Talvez
elas tenham mais escolhas na vida.
Zashi -
Porque o Yubiwa Hotel é conhecido como uma companhia feminina?
Shirotama - Eu criei cerca de 20 peças que falavam sobre o
universo feminino. Eu trabalhava com essa questão inconscientemente.
Foi em 2005 que isso se tornou mais claro com o espetáculo Candies.
Eu queria questionar a vida das mulheres como uma linha reta: nascer,
viver e morrer. Eu penso mais nisso como um círculo, acho que é
uma visão muito otimista para as mulheres. Eu pensava em levar
esse questionamento para as mulheres, mas a maioria do público
era masculino. Eles iam ver as mulheres dançando [risos].
Michimoto - Atualmente, essa questão está mais expandida
nos espetáculos da companhia, queremos levar isso para todos, também
os não japoneses, pois se trata de um tema universal.
Zashi -
E como foi a temporada no Brasil?
Michimoto - Selecionamos seis brasileiras para participar do espetáculo
para resolver nossos problemas de orçamento, não tínhamos
como viajar com todos os membros. Foi a primeira vez que fizemos isso:
audição, workshop de dança e apresentação.
Please, send junk food é um espetáculo menor, que elas apresentavam
em pequenas boates em Tóquio, por isso ele foi escolhido.
Shirotama - Foi uma ótima experiência apresentar Please,
send Junk Food em São Paulo. A diferença de nacionalidade
não interferia, trabalhamos todos juntos de uma maneira muito natural.
Zashi -
Como foi estar em São Paulo e participar do evento Tokyogaki?
Michimoto - Eu gostei muito de São Paulo, é um pouco
como Nova York, há pessoas de todos os cantos do mundo. É
uma cidade bastante cosmopolita.
Shirotama - Não conhecemos tão bem São Paulo porque
tínhamos ensaios, trabalho, mas tentávamos sair. Fomos em
um karaokê na Liberdade e parecia com um karaokê de dez anos
atrás. Tive uma sensação parecida com o Tokyogaki
[o evento do qual eles participaram] porque ele mostrava apenas alguns
aspectos de Tóquio, como butô e cultura pop. Eu não
consegui explicar para as pessoas que a cidade não é apenas
isso.
(*de
Paris, especialmente para a Zashi)
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