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Retorno definitivo de dekasseguis
aumenta desemprego no interior
Municípios como Bastos (SP) e Assaí (PR) sofrem com o problema;
prefeituras já lançaram plano de ajuda para aqueles que voltaram
 

Segundo dados do governo japonês, 30 mil brasileiros fixaram-se definitivamente por aqui após anos de trabalho naquele país

(Reportagem: Cinthia Yumi/NB | Foto: Divulgação)

O número de brasileiros que retornou definitivamente do Japão em função da crise, entre o segundo semestre de 2008 até janeiro último, chega a 30 mil. O número foi divulgado pelo Departamento de Imigração do Ministério da Justiça daquele país. Segundo o estudo, a comunidade brasileira no arquipélago teve uma redução de 20.330 mil brasileiros entre os meses de outubro e janeiro, o equivalente a cerca de 7% do total de 316 mil pessoas.

De acordo com o levantamento feito pelo ministério, no ano passado 74.691 mil brasileiros retornaram ao Brasil. Desses, 44.696 mil já voltaram ao Japão (média de 3.725 mil por mês). O restante preferiu fixar-se definitivamente por aqui. E, diante desse cenário, estão sofrendo com o desemprego nas cidades brasileiras.

Bastos, no interior de São Paulo, e Assaí, no norte do Paraná, são frutos da colonização japonesa na década de 30 e tiveram na cultura do algodão o seu primeiro sucesso econômico. Depois, vieram o cultivo de outras variedades e a industrialização. Hoje, Assaí é 50% agrícola e 50% industrial. Bastos, por sua vez, tem como carro-chefe a avicultura, ganhando fama de Capital Nacional do Ovo.

Como consequência da colonização nipônica, as duas cidades perderam um grande número de habitantes com o fenômeno dekassegui. E, agora, com o retorno desse público, vivem um novo dilema: encontrar medidas para driblar a falta de emprego para os recém-chegados à cidade natal.

Com população de 20,5 mil habitantes, Bastos saiu na frente. Desde março, a Secretaria Municipal de Comércio, Indústria e Turismo presta atendimento gratuito para os ex-dekasseguis, com o objetivo de prepará-los para o mercado de trabalho. Segundo a secretária Estelamara Ferreira, a iniciativa é divulgada à população por meio de propagandas em rádio e jornais locais. “Num primeiro momento, fazemos uma entrevista individual, depois os convidamos para assistir às nossas palestras”, conta.

Em um mês, foram atendidos 20 ex-dekasseguis. “O trabalho, que é uma iniciativa da prefeitura, ainda está em fase inicial. Mas estou feliz, porque já conseguimos recolocação profissional para um ex-dekassegui”, comemora. Entre os temas das palestras de orientação, estão “Atual mercado de trabalho na região”; “Elaboração de currículo”; e “Empreendedorismo”. Segundo ela, a estimativa é de que Bastos tenha 2 mil pessoas trabalhando no Japão.

Na cidade de Assaí, com seus quase 17 mil habitantes, não se constata a mesma tranquilidade com relação ao tema. Segundo a prefeitura, dos 1,7 mil dekasseguis da cidade, 400 permaneceram em definitivo e estão causando um impacto negativo na economia local, uma vez que constituem uma população inativa economicamente.

Em entrevista à imprensa na semana passada, republicada em alguns sites na internet, o prefeito Michel Angelo Bomtempo (PMDB) fez duros comentários sobre os ex-dekasseguis na cidade. “Essas pessoas voltaram sem a mínima condição, sem infraestrutura, sem dinheiro, chegando aqui e vivendo à base de parentes e amigos. Ou seja, está uma destruição total”, declarou.

Procurado pelo NB, o secretário de Desenvolvimento Econômico, Orlando Menegazzo Filho, confirmou a preocupação das autoridades. “Estamos preocupados com essa questão, porque não há emprego para todos, em especial neste momento de crise. Além disso, muitos deles voltaram desatualizados sobre o mercado de trabalho”, explica. Segundo ele, a prefeitura planeja formar uma comissão de ajuda aos ex-dekasseguis. Mas a ideia ainda é embrionária.

De acordo com Bomtempo, o trabalho deverá ser similar ao que foi colocado em prática em Bastos. Ele já mencionou, por exemplo, que o trabalho de ajuda vai incluir os que voltaram com problemas psicológicos e aqueles que encontram dificuldades na recolocação no mercado.

 
O vaivém do Japão e do Brasil
Mês
Retornaram ao Brasil
Voltaram ao Japão
Outubro/2008
6.678
5.116
Novembro/2008
8.045
4.316
Dezembro/2008
9.829
3.486
Janeiro/2009
12.473
3.777
Total
37.025
16.695
Fonte: Ministério da Justiça do Japão
 
Experiência e conhecimento encurtam busca por emprego

(Reportagem: Susy Murakami/NB)

Enquanto muitos brasileiros que voltaram do Japão enfrentam a dura e triste realidade do desemprego no País, uma minoria comemora a conquista por uma vaga. É o caso de Marco Gomes Kuni, 29, e Agnes Emy Okajima, 30. O que fez a diferença para eles no concorrido mercado de trabalho foi o conhecimento e a experiência.

De volta há pouco mais de dois meses, Kuni teve sorte de atuar em uma das áreas mais aquecidas atualmente, a de Tecnologia da Informação (TI). Há cerca de duas semanas, ele conseguiu o primeiro trabalho, ainda como autônomo, mas que já lhe dá uma injeção de ânimo para seguir em frente na carreira.

A oportunidade surgiu por meio de um site de cadastro de currículos na internet. Ele foi contratado por uma empresa para instalar servidores e dar orientação para um cliente em Santa Catarina.

Quando começou a procurar emprego, Marco nem sabia o que era TI. “Quando saí do Brasil, não se falava em TI. Mas, pesquisando, descobri que era exatamente o que eu já fazia”, revela ele, que fez curso técnico em processamento de dados e atuou na área antes de ir ao Japão.

Marco, que mora em São Paulo, já investiu em negócio próprio, mas não foi bem-sucedido. Agora, quer continuar como funcionário. “O salário, se comparado ao do Japão, é menor. Vou recomeçar do zero, não tenho casa, carro, nada. Tenho esposa e dois filhos e não posso dar um passo em falso.”

No caso de Agnes, que tem curso técnico em secretariado, o conhecimento da língua japonesa foi fundamental para assegurar uma vaga. Dois meses depois de retornar ao Brasil, ela foi contratada por uma agência de turismo. “Fiz curso de japonês quando era criança e o pouco que aprendi foi também por causa de meus pais e avós. No Japão, eu me aprimorei um pouco”, diz.

As buscas em classificados de jornais duraram três finais de semana. Quando se preparava para ir pessoalmente a agências, Agnes foi convocada para uma entrevista de emprego que aconteceu na parte da manhã. “À tarde, já havia obtido a resposta positiva”, conta.

Depois de mais de oito anos no Japão, Agnes diz não se arrepender da vida no arquipélago. Para compensar o tempo perdido, ela pretende se engajar na nova carreira no Brasil. “Estou aprendendo bastante e, se me adaptar bem, quero continuar me aprimorando na área”.

 
Serviço:
Prefeitura Municipal de Assaí
Avenida Rio de Janeiro, 720 - Tel.: (0xx43) 3262-1313

Prefeitura Municipal de Bastos
Rua Adhemar de Barros, 530 - Tel.: (0xx14) 3478-9800

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